quarta-feira, 25 de maio de 2011

Reprovação Escolar e Educação Brasileira - Parte 1

O que é pior: ver seu filho reprovado, tendo que estudar tudo de novo, ou vê-lo passar de ano, mesmo que não tenha aprendido quase nada?

Este foi o assunto do programa "Participação Popular" da TV Câmara no dia 14 de abril que contou com a presença de uma mãe, uma professora e dois deputados.

Aqui contarei um pouco sobre o que assisti e, no próximo post, deixarei registradas as opiniões de mães e profissionais da educação convidadas por mim para este debate. (E você também pode participar dando sua opinião nos comentários!)

O Ministério da Educação é a favor da aplicação da progressão continuada, ou seja, do fim da reprovação escolar, nos primeiros anos do Ensino Fundamental, porém, este é um assunto bastante polêmico no campo político e educacional.

De um lado, os professores e suas dificuldades reais em lidar com alunos "crus", que não foram alfabetizados no período determinado, gerando um efeito "bola de neve", pois chega ao 4º ano (antiga 3ªa série) sem conseguir compreender o que lê - isto é, se realmente souber ler.

Do outro, os políticos que consideram a reprovação um "atraso" na educação e, provavelmente o motivo mais relevante para eles, algo extremamente custoso para os cofres públicos. Explico melhor a seguir.

Para  Daniela Ribas Paim, mãe presente no programa, com a implementação da progressão continuada, muitos professores se sentiram desmotivados, não exercendo um bom trabalho e deixando de estimular os alunos, pois, se o aluno vai passar de qualquer jeito, tanto faz ensinar ou não.


professora de escola pública em Brasília, Vanuza Sales, afirma que a progressão continuada maquia as estatísticas educacionais e só piora a qualidade da educação. Em sua opinião, a repetência soa como punição e a progressão continuada acaba "soando melhor" para muitos pais.

Vanuza disse também que o sistema é perverso, pois, ao não reprovar uma criança até a 2ª série (atual 3º ano), ela chega à 3ª série com uma bomba-relógio nas mãos. Quer dizer, se não assimilou o conteúdo nos 3 primeiros anos, é praticamente óbvio que não assimilará em 1 ano o conteúdo equivalente a 3 anos.

No campo da política, o deputado Gastão Vieira (PMDB/MA) disse que os governos sentem-se entre a cruz e a espada, necessitando escolher entre algo ruim e algo péssimo. Segundo ele, 20% dos alunos dos primeiros anos do ensino fundamental são reprovados, e isto gera um gasto de 9 bilhões ao ano para os cofres públicos. Ou seja, para ele isso é a opção péssima; e a opção ruim seria o aluno passar de ano, mesmo não aprendendo tudo o que deveria, porém, evitando um gasto extremamente alto para os governos.

Outra afirmação do dep. Gastão Vieira é que a reprovação segue o princípio de uma "pedagogia do fracasso" e o que o Brasil precisa é de escolas com "pedagogia do sucesso". E outro fato que impulsiona à adoção da progressão continuada é que escolas que não tenham 90% de alunos aprovados durante o ano, são fechadas por 1 ano.

Foi citado no programa a cidade de Sobral, no Ceará, como um exemplo de sucesso em educação devido a um planejamento consistente, baseado em uma política educacional continuada, com foco na alfabetização de crianças.

Lá, a pré-escola é obrigatória. O governo apoia a família como berço da educação; orienta para que jovens não tenham filhos tão cedo, e se tiverem, ajuda e incentivam o pré-natal; depois, oferecem cursos de puericultura para as jovens aprenderem a cuidar de seus bebês. Eles acreditam que este processo resulta em crianças amadas. Neste ponto, seria correto dizer que o governo de Sobral considera o afeto como parte integrante e essencial para o aprendizado.

Já o deputado Artur Bruno (PT/CE) acha razoável a existência da repetência no ensino médio, mas é contra reprovar uma criança na alfabetização porque considera que ela não tem obrigação de aprender tudo em 1 ano. Ele é a favor da progressão continuada nos 3 primeiros anos do ensino fundamental (CA ou classe de alfabetização, 1ª e 2ª séries), embora saiba que isto não resolve a questão e afirme que o problema está no sistema; que é um problema do Estado.

Um ponto interessante citado no programa foi a ausência ou escassez de foco na alfabetização infantil dentro da ementa dos cursos de pedagogia. A opinião dos convidados do programa foi que isto também resulta em uma alfabetização ineficiente, problemática, incompleta. Por fim, também citaram que o incentivo à leitura desde bebê também auxilia no processo de aprendizagem escolar, no futuro.

Por essas e outras que é inevitável concordar com as palavras da professora Amanda Gurgel quando diz que a educação nunca foi prioridade neste país; e tenho certeza que a situação da educação do Rio Grande de Norte é a mesma em muitos outros estados, senão todos.


4 comentários:

  1. Minha filha foi reporvada há 2 anos em um colégio federal considerado forte e apesar de arrasada, acho melhor assim. Fez de novo uma série com outro gás, passou direto e este ano é outra aluna! Tneho certeza que ela aprendeu muito com a reprovação e isso a fez a aluna que ela é hj, mais aplicada e dedicada.

    Se tivéssemos ao menos uma professora como essa em toda escola, com certeza o futuro das criancas seria outro! Bjão!

    ResponderExcluir
  2. Já viste o outro video, em que ela estava no programa do Faustão?

    Ela fala que não pretendia promoção pessoal e botou mais lenha na greve dos professores, abordou questões relevantes e, se alguém pensou que ela ficaria deslumbrada com o espaço que ganhou na mídia, teve de fechar a boca.

    Acho que a reprovação em muitos casos, como a Mari disse, pode ser a melhor lição. Mas, como já te disse também, há ocasiões em que é complicadíssimo decidir (como se estivesse apenas nas mãos dos professores) se a criança merece aprovação...

    Beijo, parabéns pela iniciativa! Como professora me senti feliz em ver que há outras pessoas na sociedade, fora os profissionais da educação, refletindo sobre o tema! A comunidade escolar de que se fala é a sociedade como um todo: onde queremos chegar com a educação é a pergunta central dessa discussão!

    Ingrid

    ResponderExcluir
  3. Achei seu post muito proveitoso, estou realizando projeto de pesquisa sobre a educação brasileira, e gostaria de saber se você não poderia me disponibilizar suas fontes. Obrigada

    Eline Timbó

    ResponderExcluir

Não vá embora sem deixar um comentário, né?
A melhor parte é o bate-papo... :)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...